sexta-feira, 18 de julho de 2014

Xógum - Resenha



Saudações, fieis leitores! Após um breve período de recesso, retorno até vocês com a resenha de um de um dos livros mais fascinantes, porém nem tão bem conhecidos assim, que eu já tive a oportunidade de ler.

Falo sobre Xógum, a obra mais conhecida do escritor/diretor/roteirista James Clavell. Para mais informações, continue lendo esta postagem.


(capa da edição da Editora Sextante) 








O Autor: 









Nascido em 10 de Outubro 1924 em Sidney, Charles Edmund Dumaresq Clavell - também conhecido como James Clavell - tem um impressionante registro de façanhas. Veterano da Segunda Guerra Mundial, onde também foi feito prisioneiro pelos japoneses - experiência essa que terminou servido de base para seu primeiro livro, Changi (King Rat) de 1962 -, Clavell também trabalhou como roteirista - e, entre esses trabalhos, podemos citar o A Mosca da Cabeça Branca (The Fly) de 1958 que teve um remake quase 30 anos depois chamado simplesmente de A Mosca. - e como diretor - o espetacular Ao Mestre com Carinho foi dirigido, roteirizado e produzido por ele. No entanto, foi como romancista que o "inglês meio irlandês e americano, nascido na Austrália mas cidadão dos EUA e com residência ora na Califórnia, ora me Londres" alcançou  seu renome.

Sua obra mais conhecida, Xógum, marca o "início" de seu maior projeto, conhecido como "A Saga Asiática", na qual, ao longo de seis livros, o autor conta a história das relações dos ingleses com a Ásia e as situações resultantes do encontro dessas duas culturas. Digo que a "Saga" se inicia em Xógum porque, só recebe esse nome depois da publicação do mesmo.

Para os muito curiosos, segue a lista da grande saga de Clavell, por ordem cronológica dos livros e onde cada um se passa:


1 - Xógum (1962) - Japão Feudal, em 1600;

2 - Tai-Pan (1966) - Hong Kong, em 1841;

3 - Gai-Jin (1993) - Japão, em 1862;

4 -  Changi (1962) - Campo de prisioneiros de guerra japonês em Singapura , em 1945;

5 - Casa Nobre (1981) - Hong Kong, em 1963;

6 - Turbilhão (1986) - Irã, em 1979;

Clavell morreu em 07 de Setembro de 1994, vítima de um derrame.

Pois bem, uma vez tendo falado sobre o criador, falemos agora sobre a criatura.


O Livro:

 Em Xógum, acompanhamos a história de John Blackthorne, um piloto inglês a bordo do navio Erasmus que, após quase dois anos no mar, naufraga no Japão após uma terrível tempestade. Uma vez lá, o piloto entra em contanto com a milenar cultura japonesa, ao mesmo tempo que se vê envolvido em um intrincado jogo de poder entre os daimôs do país que, em paralelo, sofre intensas mudanças em sua cultura graças à chegada do catolicismo, trazido pelos padres jesuítas e comerciantes portugueses.

Ligeiramente baseada na história do xógum Tokugawa Ieyasu, fundador do xogunato Tokugawa (1600-1868) e na do inglês Willam Adams (1564-1620), que é creditado como o primeiro inglês a ter viajado até o Japão, o livro é um grande - literalmente, o livro tem 1040 páginas - romance histórico que mistura coisas tão díspares quanto o  choque de culturas, intrigas políticas, disputas pelo poder e um romance proibido , de um modo tal que  é impossível não se afeiçoar de algum modo ao mesmo.

Clavell nos oferece uma história muito rica, apresentando não só personagens humanos, mas uma riqueza de detalhes enquanto descreve o mundo oriental, com suas tradições e rituais, sob o ponto de vista de um europeu - o que leva a interessantes choques culturais, o que ocasiona muitos momentos interessantes no livro. No entanto, essas mesmas descrições - que podem ou não bater com a realidade, lembrem-se que antes de mais nada, falamos sobre uma obra de ficção - serve com uma lâmina de dois gumes pois, se por um lado enriquecem o texto, por outro conseguem deixá-lo muito pesado em certos momentos, o que quebra muito o ritmo da história, dificultando a leitura. De fato, um exemplo disso é que o livro propriamente dito só começa  por volta da metade do Livro II, por volta de 100 páginas depois do começo.

Em compensação, quando o livro finalmente começa a desandar, quando o daimiô Toranaga - que deveria ser o verdadeiro protagonista do livro - começa sua luta pelo poder - e pela sobrevivência - o leitor é lançado em um complexo jogo de guerra, onde estratégias são traçadas, destruídas e refeitas em questão de páginas, e é precisamente aqui que está toda a genialidade do livro. Em seus melhores momentos, Xógum lembra muito uma complexa partida de xadrez jogada por grandes mestres, onde nenhum lance é desperdiçado, onde todos os sacrifícios são calculados e onde todo e qualquer personagem termina servindo como uma peça de tabuleiro, conscientemente ou não. De fato, praticamente todos os personagens relevantes para a narrativa, e alguns nem tanto, terminam tendo alguma utilidade nos jogos de guerra do daimiô, de uma forma ou de outra, e é isso, ao meu ver, o que torna o livro algo tão incrível, e Toranaga um personagem tão fantástico- e nos levando a atesta a frase do mestre Tolkien "O problema é que o livro é curto demais".

Outro ponto que pode desagradar a um grande número de leitores, é o modo súbito como  o livro termina. Eu mesmo não me senti afetado por isso - até porque o final faz total sentido se levada em conta a lógica do livro - mas o que gera o verdadeiro problema aqui é que ele simplesmente acaba e, levando em conta que o autor passou quase 1000 páginas para chegar nele, seria de se esperar um final mais elaborado - ou mais algumas páginas para complementar o resultado, agravado ainda pelo fato de o livro todo estar preparando  o leitor para esse grande momento final, que não acontece. Ainda assim, dentro de toda a lógica do livro, até que o final faz muito sentindo e não é nada que realmente consiga diminuir o mérito da obra.

 Em resumo, Xógum é uma ótima leitura, mesmo com todas as falhas e problemas que possa apresentar ao longo do caminho. O complexo jogo de poder nele apresentado, assim como o gênio estratégico de Toranaga, é um show a parte, garantindo ao livro uma alma própria,   e merece ser lido por todos aqueles que apreciem um personagem mais cerebral do que o comumente encontrado na grande maioria das histórias.