quinta-feira, 15 de junho de 2017

Resenha: Cavaleiro da Lua Volume 7 - Parte 1

Desde sua estreia, nas páginas da edição 32 da revista Werewolf by Night - em 1975 - o Cavaleiro da Lua se tornou um daqueles ilustres personagens de Segundo Escalão do Universo Marvel - que, verdade seja dita, foi durante muito tempo um dos pontos fortes da editora, unindo não só personagens incríveis como também histórias fantásticas.

Contudo, é importante constatar que, para um personagem  do segundo escalão, o Cavaleiro  teve uma quantidade considerável de títulos - ainda que todos de curta duração -, tendo, desde sua primeira série, em 1980 - aquele período fantástico com Doug Moench nos roteiros e Bill Sienkiewicz na arte que valeu ao personagem o título de "Batman da Marvel" - um total de oito séries estampando seu nome na capa.

É sobre um desses títulos - mais especificamente o volume 7, compilado aqui pela Panini Comics em três encadernados publicados entre Outubro de 2015 a Abril de 2016 - que vamos falar neste post.

P.S: As primeiras partes do post são mais "fundamentação teórica", ficando a parte de resenha no terceiro tópico. Sintam-se a vontade para pular até a parte que realmente interessa.






Mas primeiro, quem diabos é o Cavaleiro da Lua?


Ainda que tenha aparecido pela primeira vez nas páginas da revista do Lobisomen, a origem e motivações do personagem só são reveladas na primeira edição do seu primeiro título - de Novembro de 1980. Ali, nos é contada a história do mercenário Marc Spector que, morrendo durante uma missão no Sudão, é trazido de volta à vida pelo deus egípcio da Lua Khonshu. Desse ponto em diante, é criado um vínculo entre a divindade e o mercenário que, acredita ter sido ressuscitado para poder atuar como avatar desta divindade, vingando e protegendo os inocentes.

Também nesse primeiro número somos apresentados a todo aquele que viria a ser o elenco de apoio da série. Assim, temos as aparições do Francês (piloto/ajudante); Marlene (par romântico); Crowley (um tipo de informante) e  Gena (a dona de uma lanchonete) e seus dois filhos.
O mais interessante, porém, é que também nesta primeira edição somos apresentados ao conceito que, anos mais tarde, viria a se tornar um dos pontos mais importantes do personagem: as múltiplas identidades.

Pois, além de atuar como Marc Spector/Cavaleiro da Lua, o personagem ainda possuí a identidade de Steve Grant, o milionário playboy e Jack Lockley um taxista comum de Nova York, todas atuando em conjunto no trabalho do vigilante.


Esse recurso, além de refletir uma preferência de Moench pela temática de identidades* que mais tarde voltaria a ser trabalhado pelo roteirista durante sua passagem pelo Batman - serviu também como pedra angular para as histórias do personagem, permitindo uma maior variação de situações, ampliando seu leque de investigações e possibilidades, conferindo-lhe uma identidade própria, afastando-o da sua contra parte da outra editora - ainda que durante um certo período de tempo o próprio Batman se valesse do recurso duma terceira identidade.
 
Também foi esse recurso que permitiu que as primeiras dúvidas quanto à sanidade do personagem fossem lançadas, ainda que de modo muito sutil e quase sempre vistas na forma de colapsos nervosos - sempre resolvidos ao fim de algumas edições.
Isto é, até 2007.


O Ponto de Virada



Em 2006 - quase 12 anos após seu último título - o Cavaleiro da Lua foi reintroduzido no Universo Marvel. Com roteiros de Charlie Huston e  arte de David Finch, o Volume 4 do Punho de Khonshu apresentou um herói quebrado tanto física quanto psicologicamente que aos poucos vai retornando à sua função de vigilante. Reintroduzindo boa parte do elenco secundário, a série também dá papel maior à figura de Khonshu, que passa a interagir diretamente com seu protegido.

Os diálogos/discussões com Khonshu passariam a se tornar uma das marcas registradas da série - assim como a violência quase cavalar - trabalhando a relação de Spector com a divindade egípcia, ao mesmo tempo em que iam preparando terreno para aquela que talvez fosse a maior reviravolta na história do personagem.

Pois, em 2007, na décima terceira edição da revista, é estabelecido a condição psicológica única do personagem. Ainda que este não fosse um tema exatamente novo, Huston retrabalhou o tema da sanidade do herói, levando-o às últimas consequências. Agora, Grant e Lockley não seria apenas fachadas utilizadas pelo herói, mas verdadeiros aspectos de sua psique, personalidades que se alternariam com a de Spector que, no caso, seria a personalidade dominante. Mais, a própria manifestação de Khonshu, a divindade a quem o herói devia sua ressurreição, também não passaria de um delírio criado pela mente do mercenário.

Essa temática da insanidade do herói acabou se convertendo no grande legado desta série - que durou apenas 30 edições - sendo logo assimilada ao "cânone" do personagem, de modo que todas as séries subsequentes - Vengeance of the Moon Knight (2009-2010) e o Volume 6 (2011-2012) - beberam diretamente desta fonte.

Em Vengeance, por exemplo, a personalidade de Lockley assume o controle do corpo do herói, criando toda uma mudança em seu modo de operação. No Volume 6, as três identidades clássicas foram substituídas pela participação do Homem-Aranha, Capitão América e Wolverine, cada uma assumindo um aspecto diferente da personalidade do herói. 

Essas duas séries, contudo, tiveram vida muito curta - Vengeance chegou a ter 10 edições, enquanto que o V6. alcançou 12. - servindo mais para permitir o desdobramento da ideia da loucura do personagem do que como marcos efetivos.

A parte onde queríamos chegar desde o inicio
  
Estreando em 2014 como parte da chuva de títulos conhecida como Marvel Now!,  o volume  7 do Cavaleiro da Lua foi, assim como suas antecessoras mais próximas,  uma série de curta duração.  No entanto, ainda que não tenha passado de 17 edições,  esta foi sem sombra de dúvidas uma das mais importantes séries do personagem.

Ainda que não tenha contado com uma equipe criativa fixa, tendo ao todo cerca de 3 roteiristas diferentes e uma penca de desenhistas, o resultado final da série é bem consistente, mesmo que possa se desviar um pouco vez por outra, sendo talvez uma das melhores levas de HQs recentes da editora.

Agora, vamos falar um pouco mais sobre a série propriamente dita.

Cavaleiro da Lua n#1 - Entre os Mortos

Imagem retirada do site Guia dos Quadrinhos
Warren Ellis comanda as seis primeiras edições deste encadernado que funciona como base para o que vai ser o restante da série. 

Sob seu comando, Marc Spector  volta para a cidade de Nova York.Não a Nova York iluminada e amistosa de personagens como o Homem-Aranha, mas antes uma cidade escura e suja, quase sempre de vielas e becos imundos, onde o personagem - e sua nova persona, o Sr. da Lua - atua na solução de casos que, tendo em comum apenas o fato de ocorrerem a noite, vão do sobrenatural - como o ataque de um grupo de punks fantasmas - ao corriqueiro - como o rapto de uma garotinha.
  
Esse jogo com o sobrenatural - ou, por vezes, o simples estranho -   vai dar a marca e a tônica da série, seja no desenvolvimento/construção dos casos - uma influência que vai crescer  nos próximos volumes, aproximando o personagem daquilo que seria um occult detective - seja no desenvolvimento do próprio personagem - a resolução para a questão de sua insanidade, ou mesmo no seu relacionamento conflituoso com o próprio Khonshu.

Falando em Khonshu, também será nesse volume que teremos uma ideia do que será o elenco de apoio da série. Seguindo a tendência recente do personagem de enxugar sua equipe, aqui temos o Cavaleiro da Lua trabalhando praticamente sozinho, tendo como "apoio" apenas a  Dra. Elisa Warsame, sua psicóloga, o Detetive Flint - um personagem saindo diretamente do volume 1 do herói - que será sua "ponte" como Departamento de Polícia de Nova York, através do qual o personagem vai receber os casos a serem investigados e, por fim, o próprio Khonshu, que será ora seu mentor/guia, ora seu adversário.
 No tocante às histórias propriamente ditas, teremos narrativas episódicas, auto contidas e auto suficientes. Sempre diretas, as histórias com um ritmo frenético de seriado de TV - com diálogos precisos e rápidos, mesmo quando explicativos, que sempre impulsionam a história para frente, e sequências de ação fluídas, claras e precisas.

E aqui será preciso fazer um pequeno aparte sobre a arte desta edição. A arte das seis histórias aqui apresentadas fica a cargo de Declan Shalvey que consegue dar vida e forma aos mais diversos cenários, sejam eles os esgotos da cidade ou uma paisagem onírica e surreal, com sua arte não necessariamente "suja", mas carregada de sombras e tons de cinza. Mesmo assim,  sua arte ficaria vazia não fosse pelas cores da colorista Jordie Bellarie que, com uma paleta de cores sempre frias e emaciadas, dão o verdadeiro peso, atmosfera e tom das histórias desta edição.

Voltando as histórias, é a sua natureza fechada que será, sob muitos aspectos, o grande trunfo dessa série, ainda que, por vezes, ela também vá ser seu grande calcanhar de Aquiles.

Por um lado, numa época em que as histórias se estendem desnecessariamente em vinte e cinco edições mensais - e isso num período bom e sem a presença de um mega evento - a simples ideia de se ter histórias curtas e independentes umas das outras é um sopro de ar fresco num mercado estagnado. Mais do que isso, porém, ao adotar esse caminho Ellis consegue se livrar das amarras da cronologia e das continuações, o que permite que ele entregue, em cada edição, histórias novas e sempre interessantes que, ao mesmo tempo em que expandem o universo recém estabelecido pelo autor, são também histórias "leves" - leia-se sem a pretensão de ser um divisor de águas do gênero - incrivelmente prazerosas de se ler, como é o caso de Scarlet, e que permitem, vez por outra, interessantes experimentações narrativas - como é o caso de Atirador de Elite, onde, na introdução, as páginas vão perdendo quadros de acordo com o número de mortos.

Por outro lado, o formato de história fechada trás consigo suas próprias limitações. Uma vez que se limita às suas vinte páginas, ele restringe bastante a possibilidade de um possível aprofundamento da história. Ainda que esse seja um problema que só vá ser sentido com  mais força nas outras duas edições, ele já aparece nesta primeira edição, como, por exemplo nas histórias Caixa e Sono. A última, em particular, é a que mais sofre com isso, pois, apesar de se basear numa premissa sensacional, sofre bastante com um desenvolvimento - e posterior conclusão - que parecem ter sido bastante apressados para se encaixar no formato escolhido. Não chega, contudo, a ser uma história ruim, sendo antes uma história mal aproveitada em vista das grandes possibilidades que ela carrega consigo.

Uma outra grande desvantagem que se poderia apontar sobre esse formato se encontraria na falta de aprofundamento dos personagens. Sem espaço para seu desenvolvimento - ou uma cronologia que os dê suporte a longo prazo - os personagens podem, muitas vezes, se tornar planos. Entende-se, é verdade, seus objetivos e motivações, chega-se até mesmo a ter uma ideia de quem eles são e o que fazem, mas tudo de uma maneira um tanto quanto rasa, tendo em vista o limite de vinte páginas e o isolamento proposto de cada edição.
  
Curiosamente, como para desafiar a ideia do parágrafo acima, temos Espectro, justamente no final da edição. Nela, Ellis narra a história da nova versão do Espectro Negro, traçando um perfil do vilão e, paralelamente, por negação, o perfil do próprio herói. E tudo isso no limite fechado das vinte páginas.

E eis aqui mais um outro fator que torna esta edição tão interessante.

Poucos autores atuais conseguem ser versáteis como Warren Ellis, e menos ainda são aqueles capazes de criar um mundo e um personagem tão estranhos e, ainda assim, plenamente funcionais e tudo isso num formato tão limitado. Ciente das fraquezas e vantagens do trabalho, Ellis consegue tirar sempre o máximo de proveito das últimas e, quando não evita por completo as primeiras, consegue trabalhar de modo a minimizá-las ao máximo, e sempre entregando histórias com a mesma qualidade, formando um conjunto incrivelmente consistente.  Mais do que isso, o autor britânico  - devidamente acompanhado com a bela dupla Shalvey e Bellarie - consegue realizar um reboot de sucesso, trilhando caminhos praticamente inéditos e de certa forma impensáveis, dando frescor a um personagem com 40 anos de história e o tornando interessante para toda uma nova geração de leitores.

Assim, temos aqui não só uma leitura indispensável para os fãs do personagem, mas também uma leitura maravilhosa para todos aqueles que, cansados de séries infinitas, ou de histórias que se levam a sério demais, procuram uma leitura mais leve, mas, nem por isso, menos interessante ou divertida.

*Quanto a este tocante, ver o capítulo dedicado ao roteirista no livro "A Caminho da Justiça";